Apresentação

A Ilha vista por dentro

Frequentemente Cuba é protagonista das notícias mundiais: reestabelecimento das relações diplomáticas com Estados Unidos em 2014, o retrocesso do processo com Donald Trump, morte de Fidel Castro, são apenas alguns dos exemplos recentes. Com tudo isso aumentam a curiosidade e as expectativas sobre o futuro da Ilha que, apesar de ter mais acesso à internet desde 2015, com a instalação de pontos de wi-fi em praças, segue fechada, e a troca de informações com o resto do mundo, difícil.

A curadoria da mostra “Por dentro da Ilha” apenas se torna possível graças ao intercâmbio pessoal entre realizadores e a curadora Denise Kelm, que viveu lá por três anos, estudando na Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños (EICTV), fundada por Gabriel Garcia Márquez, Fernando Birri e Julio Spinoza. Cuba é uma ilha com uma história única e complexa, cheia de contradições que mesmo depois de anos de vivência são difíceis de explicar.

Nessa história, o cinema ocupou um papel muito presente. Ainda hoje, dezenas de cinemas de rua localizam-se em Havana. Suas salas, com mil, dois mil lugares lotam, principalmente quando as estreias são filmes cubanos. O Festival de Havana é conhecido pela grande participação da população que aguarda ansiosamente os dias das exibições.

Imediatamente após a instalação do regime socialista, o Estado passa a investir no cinema. E a exemplo do que ocorreu na União Soviética (vide Einseinstein, Vertóv, etc.), mesmo pensado para ser fonte de propaganda, o fomento revela artistas e verdadeiras obras de arte.

Com o fim da URSS, nos anos 1990, Cuba entra no período especial. A falta de comida e recursos também se transfere ao cinema. Porém, nunca se deixou de se fazer cinema na Ilha, de uma maneira ou de outra.

Santiago Álvarez, Tomás Gutierrez Alea e Fernando Pérez são exemplos de cineastas historicamente reconhecidos. Porém, a mostra “Por dentro da Ilha” visa mostrar novos realizadores, com uma rigorosa seleção dos últimos 15 anos.

É interessante notar que o cinema independente cubano tem ganhado cada vez mais força. Isso pode ser um fenômeno comum em outros países, mas muito especial em um país com dificuldade de acesso a tecnologias e com um extremo controle do estado. Todas as produções cinematográficas sempre foram obrigadas a passar pelo ICAIC – o órgão oficial do governo. Mesmo assim, os novos realizadores encontraram formas de produzir à parte e hoje se articulam politicamente para aprovar uma nova Lei de Cinema, mais democrática. “Independente”, “democrática”, são palavras com um peso especial no contexto cubano.

A mostra se compõe também de coproduções com outros países, produções do próprio ICAIC e uma seleção de curtas de ficção e documentário. Grande parte dos curtas foi apoiada ou produzida dentro da EICTV, por alunos cubanos ou estrangeiros que viveram intensamente o cotidiano da Ilha.

A mostra prima pela atualidade, porém conta com uma sessão especial, dedicada a Nicolás Guillén Landrian. Nicolás é um cineasta ainda desconhecido que produziu documentários na época áurea do ICAIC, nos anos 1960. Apesar de trabalhar para o Estado, sua produção sempre foi marcada por forte crítica ao regime, o que levou à sua expulsão do órgão e posterior exílio nos Estados Unidos. Mas além disso, sua obra revela uma visão de vanguarda ainda transgressora nos dias de hoje, que influenciou muitos os cineastas cubanos.

Um tema transversal à maioria das obras é a imigração, em um país onde um quinto da população vive no estrangeiro. “Memorias del Desarrollo” é a obra mais significativa neste aspecto. O roteiro é baseado no livro homônimo de Edmundo Desnoes, também autor do livro que gerou o clássico “Memórias do Subdesenvolvimento”, de Tomás Gutiérrez Alea.

Em um país que sofre até hoje com o bloqueio econômico, pobreza e decadência também são temas recorrentes, como mostra “Hotel Nova Ilha”, exibida em Rotterdam, sobre um homem que vive em um hotel de luxo em ruínas, resgatando dos escombros objetos de outros tempos. O mais novo filme de Carlos Quintela, “La obra del siglo”, é uma história de ficção que se passa em uma cidade real onde estava projetada a construção de dois reatores nucleares. Hoje a cidade é povoada por diversos especialistas em energia nuclear, esmagados pela sombra de um futuro que não chegou.

Talvez baseado neste sentimento de morte em vida, “Juan de los muertos” é um filme de zumbis, com direito a todos os códigos de cinema de terror. A primeira obra do gênero do país, é uma comédia que também revela muito sobre a vivência cubana.

Mas além da política e da economia, os cubanos também retratam outros temas. Digna Guerra é um documentário sobre uma importante musicista, do promissor diretor Marcel Beltrán. Experimentando os limites da forma, também de Carlos Quintela, “A Piscina” retrata um dia qualquer na vida de quatro jovens com descapacidades em sua aula de natação.

A sessão de curtas de ficção conta com “Los Anfitriones” e “Los Minutos, las Horas”, exibidos em Cannes, “Ventanas” e “Polski”, presentes em Clermónd-Ferrand, entre outros curtas premiados, além dos curtas que apenas estão começando seu circuito em festivais.

Ao final da mostra provavelmente os espectadores entendam Cuba menos ainda, por sua complexidade e contradições. Mas esperamos que com essa mostra, através de uma multiplicidade de formas e olhares, pelo menos uma parte do mistério que ronda a Ilha seja desvendado.